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Mímica na audiência: imagem e ação (judicial)

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O idoso juiz era frequentemente visto praguejando acerca de como a informática sempre o deixava na mão. Não confiava na internet. Preferia encarar uma fila um banco, a arriscar-se em uma aventura digital.

Utilizava a web apenas para pesquisar jurisprudência, ainda assim sempre acompanhado por um jovem estagiário que o salvava nos momentos de aperto.

Todavia, a pandemia da Covid-19 obriga o experimentado magistrado a lançar mão das audiências por videoconferência. O simples fato de saber que passaria o dia online já é suficiente para fazê-lo acordar de mau humor.

Na conjunção, ficou fácil de notar a falta de jeito do juiz na condução das audiências virtuais. Em vez de falar naturalmente ao microfone, ele grita como se desejasse fazer sua voz chegar naturalmente ao domicílio das partes, e não pela internet.

Sem destreza para encerrar as sessões, permanece com o microfone aberto, deixando vazar ruídos e assuntos pessoais, ao mesmo tempo em que amaldiçoa os equipamentos eletrônicos. Enfim, mantém a prestação jurisdicional, ainda que à custa de muito azedume.

Um dia desses, aberta a audiência virtual, uma advogada começa a mover seus lábios sem que sua voz seja ouvida pelos demais. O sangue de Sua Excelência ferve. A intensidade de sua voz, que já era alta pela falta de traquejo, amplifica-se em face do ódio visceral:

– Não estamos ouvindo nada, doutora!

Pela expressão facial, percebe-se a surpresa da advogada com a chamada. Ela mexe freneticamente em seu equipamento que não dá sinais de melhora. O juiz perde a paciência e resolve remarcar a solenidade, mas a profissional, sem microfone, gesticula negativamente com a cabeça. Ela aponta para os papeis que tem diante de si e, então, balança a cabeça afirmativamente.

Neste momento, ouve-se apenas o ranger de dentes do magistrado, até que a advogada da parte contrária intervém:

– Excelência, eu sou craque naquele jogo ´Imagem e Ação´, sabe? Aquele em que uma pessoa faz mímica e a outra tem que adivinhar. Pelos movimentos da colega percebo que ela deseja conciliar.

Ante o polegar direito empinado, como sinal de positivo da inaudível advogada, a negociação tem curso em forma de mímica. O magistrado até tenta ajudar com as adivinhações, mas tem um pico de pressão durante o procedimento. Então sai, é medicado, retorna, e as tratativas ainda não haviam acabado.

Tudo porque as partes, embora gesticulando, engajaram-se em uma ferrenha negociação, estabelecendo valor de entrada, parcelamento, juros, multa, índice de correção e até uma cláusula de confidencialidade.

Feito afinal o acordo, o juiz encerra a audiência e sai enfurecido pelos corredores do fórum. Deparando-se com seu estagiário, desabafa sobre a experiência traumática da complexa negociação através de mímica, ao que o menino responde, surpreso:

– Poxa vida! E por que não usaram o chat?

Fonte: https://espacovital.com.br/publicacao-38104-mimica-na-audiencia-imagem-e-acao-judicial?utm_campaign=EV+10_07_20&utm_content=M%C3%ADmica+na+audi%C3%AAncia%3A+imagem+e+a%C3%A7%C3%A3o+%28judicial%29+%7C+Espa%C3%A7o+Vital+%281%29&utm_medium=email&utm_source=EmailMarketing&utm_term=EV+10_07_20

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