Fechar
Buscar no Site

O FUNCIONÁRIO (LADRÃO) DO MÊS

Há alguns anos fui contratado para desenvolver uma análise de custos em uma empresa de médio porte que havia crescido rápido e desordenadamente. Na primeira reunião, o cliente foi enfático em dizer que precisava fechar as torneiras, só não sabia que torneiras exatamente precisavam ser eliminadas.

Logo nas análises preliminares observei um volume de recursos aplicados em uma área que fugia dos padrões. Resolvi esmiuçar cada conta a partir dali.

Antes da primeira semana chegar ao fim, não encontrei absolutamente nada de anormal. Exceto, claro, os valores absurdos que eram dispendidos.

Eu poderia ter passado para outras áreas, mas preferi dedicar mais tempo para buscar uma justificativa para aquilo. Não encontrei. Isso foi o start. Todos os papéis dali eram perfeitamente arquivados, diferente de todo o resto da empresa – que era organizada como um quarto de duas adolescentes.

Por ali eram feitas as compras de equipamentos que ficariam em comodato. Era tudo tão perfeito. Os pedidos, as ordens de compra assinadas, as cotações de outros dois ou três fornecedores em anexo. Mas algumas coincidências chamaram ainda mais atenção: todas as compras eram feitas no mesmo fornecedor, em intervalos de tempo constantes (a cada duas semanas). Só os valores sofriam leves variações. Outro fato intrigante: cerca de 30% das notas fiscais não tinham termos de recebimento de mercadoria em anexo – na verdade, em lugar algum.

Todos os equipamentos tinham os números de série registrados no sistema. Mas sem o termo de recebimento, era como se tivessem sido jogados por cima do muro.

Todos tinham registro, mas milagrosamente, todos já haviam sido alocados e não estavam mais nas dependências da empresa.

Separei os registros daqueles equipamentos que estavam alocados, mas não apresentavam o termo de recebimento. Fiz, por amostragem, uma consulta aos CNPJ´s desses clientes que deveriam estar utilizando os equipamentos e descobri que todos eram Microempreendedores Individuais (MEI´s) com menos de 6 meses de atividade.

Estranho. Naquela época, logo que o governo lançou o programa de MEI´s, era mais fácil conseguir um CNPJ que um CPF ou RG. Bastava entrar no Portal do Empreendedor e fazer o registro. O bendito documento saía na hora, on line, e garantia os mesmos direitos que qualquer empresa possui.

Visitei os endereços (registrados no CNPJ) de alguns desses clientes e…tchan, tchan, tchan…eles nem sabiam do que se tratava. Não sabiam de equipamento, da empresa que fornecia e, pasmem, nem que eram MEI´s.

Consultei o cadastro de inadimplentes da empresa e, acreditem, todos estavam lá. Nunca tinham feito qualquer pagamento.

Estava descoberta a torneira. Para aquilo funcionar, boa parte dos funcionários precisaria estar em conluio (área de vendas, compras, estoque, financeiro…). O nível de organização me impressionou. Eles conseguiam esconder com louvor aquele câncer que representava 16% do custo total da empresa. Outro detalhe absurdo: como eles conseguiam forjar tantos CNPJs?

Eram muitas perguntas e eu só estava na quarta semana.

Para resumir, 17 pessoas foram demitidas (8 por justa causa) e a empresa registrou prejuízo naquele longínquo ano, mas sobreviveu.

A maioria dos envolvidos culpou a baixa remuneração. Se eles tivessem usado metade dessa sagacidade para resolver os problemas reais da empresa em que trabalhavam, alcançariam grandes resultados e poderiam, quem sabe, pedir um aumento.

O conteúdo deste blog é livre e seus editores não têm ressalvas na reprodução do conteúdo em outros canais, desde que dados os devidos créditos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

mais / Postagens