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Crônica antiga de Jomar Moraes

Jeisa, a que não morreu

Jomar Moraes

Hoje interrompo o silêncio que achei prudente adotar, e que meus irmãos igualmente mantiveram, apesar de todos os motivos que eles e eu tínhamos e temos para manifestar nossa repulsa e reprovação diante de fato já amplamente tornado do conhecimento geral: o fato de nossa irmã Jeisa (o nome é mesmo com J) ir num veículo, no qual fora atingida por um tiro disparado por um policial que provavelmente se considerava a serviço da Lei e da ordem pública.

O silêncio guardado até aqui por mim e por meus irmãos permitiu superar os primeiros momentos de tensão emocional, em que as manifestações de inconformidade nem sempre conseguem o equilíbrio de que precisam revestir-se, para conduzirem à reflexão, para ensejarem lições capazes de tornar as relações sociais mais fraternas e menos desrespeitosas.

Posso, hoje, relativamente a esse fato que envergonha nossos foros de povo civilizado e atenta frontalmente contra a dignidade inerente à cidadania, falar sem a exaltação dos primeiros instantes, quando tudo conduz às reações de ódio e de revolta, decorrentes de uma situação odiosa e revoltante.

Jeisa levou um tiro na cabeça, mas teve a sorte de não morrer nem ficar irremediavelmente afetada em sua saúde, segundo a avaliação médica até aqui vigente. Pode contar uma história que certamente não será de seu agrado, pelo que evoca e traz à tona da memória. Melhor direi que ela pode tudo fazer para esquecer essa história da violência praticada pelos que são pagos para dar segurança à população.

Outras muitas pessoas, entretanto, são quase que diariamente assassinadas, numa rotina macabra que já nem parece causar estranheza, tal a frequência com que se repete, minando nossa capacidade crítica e produzindo um quadro de torpor e insensibilidade que nos faz conviver com o absurdo, como se fosse a coisa mais normal e corriqueira deste mundo.

Basta ler os jornais a partir do último dia 15, para saber que a violência policial está entre os assuntos que mais espaço ocupam nas páginas dedicadas às reportagens de polícia.

Lamento que essa seja uma constatação irrefutável, porque sei que isso constrói um círculo vicioso de ódio e de repulsa que somente alimentam a violência institucionalizada. Cada vez que fatos desabonadores do comportamento policial são divulgados com certa insistência cresce o grau de distanciamento entre a população que paga tributos para ver-se protegida, e os agentes da segurança pública que não sabem cumprir com o seu dever.

Vai daí que deparar-se com policiais já não significa segurança para o cidadão. Significa medo, perigo e possibilidade de desfechos fatais. Sim, porque os policiais estão armados, mas nem sempre demonstram possuir o mínimo preparo para a alta responsabilidade de atuar entre cidadãos que andam desarmados e precisam de segurança.

Estas considerações não representam uma generalização que pretende atingir a todos os policiais, onde reconheço que há muita gente equilibrada e de bom senso. É meu dever fazer, aqui, a ressalva de que há bons e maus policiais, assim como lembrar que o dever das autoridades a quem o assunto está afeto é jamais negligenciar no sentido de que todas as funções públicas estejam a cargo dos bons agentes. Funções das quais não pode ser excluída a policial, naturalmente.

Temos um quadro geral de desesperanças e frustrações que precisa ser revertido, sob pena de estarmos construindo uma sociedade sem horizontes.

De minha parte, adoto, aqui, o papel do cidadão que tem deveres a cumprir e direitos a ver respeitados. Espero que o que aconteceu a Jeisa não continue repetido contra outras pessoas indefesas, que nem sempre terão a sorte de sobreviver a um tiro na cabeça. Cobro, com toda a veemência possível, a apuração dos fatos e a punição dos culpados. Digo culpados, porque não vejo apenas o sargento autor do disparo. Sei que a patrulha era comandada por um capitão e que ele, com sua responsabilidade de oficial, poderia ter evitado o que ocorreu.

Quero encarecidamente agradecer a todos os amigos que, pelos mais diversos meios de comunicação, manifestaram sua solidariedade.

Vamos aguardar os desdobramentos legais, com serenidade e crença na observância da lei. Esse é o caminho a seguir numa comunidade civilizada. Se tal caminho se fecha ou desvia, vem o desespero, cresce o ódio, nasce a certeza de estar na sociedade sem leis. E não é bom que ninguém seja compelido a fazer sua própria lei. (Artigo do professor Jomar Moraes, publicado no jornal O Estado do Maranhão, no dia 1º de março de 1989)

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