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Jomar Moraes e a Quarta-Feira de Cinzas

Jomar Moraes gostava de incentivar jovens para que obtivessem conhecimento e gosto pela literatura

No ano de 1990, o professor Jomar Moraes reuniu diversas de suas crônicas, num livro que publicou intitulado “Cinza das Quartas-Feiras”. Esse título tomou como ponto de partida o sintagma locucional bem conhecido, Quarta-feira de Cinzas, dia de todas as ressacas etílicas e morais, porém no calendário católico apostólico romano, o dia vestibular da Quaresma, suposto período de contrição, de arrependimento e até de autopunição pelos excessos praticados no auge do tríduo, em que, acima e além de todos os preceitos e valores, é a carne fremente, indomada e indomável que vale. Carnaval, ‘carnevale’.

Mas, como ia dizendo, Jomar Moraes tomou o sintagma locucional Quarta-Feira de Cinzas e a partir dele chegou ao título do livro que é, repito, “Cinza das Quartas-Feiras”. Não se trata de um mero jogo de palavras, mas de um título que continua fazendo sentido, e que no passado fazia mais sentido ainda, pois nas quartas-feiras de cinzas, durante seguidos anos, os jornais impressos não circulavam em São Luís – nem Jornal Pequeno, nem O Estado do Maranhão nem O Imparcial.

Digo ser de crônicas o citado livro de Jomar Moraes apoiado na indiscutível autoridade de Fernando Sabino, que no livro “A falta que ela me faz”, escreve, a certa altura: “Crônica? Nunca a célebre definição de Mário de Andrade (sobre o conto) veio tão a propósito: crônica é tudo aquilo que chamamos de crônica.”

As crônicas reunidas no livro apareceram, primeiramente, no suplemento Alternativo (seção “Hoje é Dia de …”), de O Estado do Maranhão, onde Jomar Moraes escrevia às quartas-feiras, desde fevereiro de 1984.

Pelo menos sob um aspecto este volume tem um mínimo de unidade: seu conteúdo, salvo raras exceções, é datado, tópico, circunstancial. Corresponde à interpretação que Jomar Moraes fazia de fatos do cotidiano maranhense e brasileiro. Reflete atitudes e sentimentos decorrentes dos estímulos mais diversos. Tudo, pelo comum, escrito no calor da hora, e com a pressa de quem era capaz de fazer crônicas antes de esgotado o prazo estabelecido pela Redação do jornal.

Isso explica pequenas modificações de forma que, aqui e ali, Jomar Moraes julgou necessário introduzir nestes textos destinados à existência por um dia, e que agora podem – quem sabe? – ganhar alguma sobrevida. Para o que nasceu com destino tão precário, já é muito.

Talvez a publicação deste livro de Jomar Moraes seja uma comprovação a mais de que Plínio, o Velho, dizia uma verdade, que tantos repetiram, entre eles Cervantes, e que pode entrar nesta paráfrase, com o auxílio da conhecida sentença de Mallarmé: nenhum livro é  tão mau que não tenha algo de bom, e tudo, neste mundo, existe para terminar num livro.

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