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O Senhor dos “Anéis de Doutor”

Por Edson Travassos Vidigal

 

Há duas semanas escrevi sobre o ensino superior gratuito. Defendi o fim dessa prática desregrada sem os devidos mecanismos responsáveis de sustentabilidade e eficácia, e a impossibilidade de se gastar recursos públicos bancando cursos de graduação e pós-graduação enquanto não existir educação básica de qualidade disponível de forma universal a todos os brasileiros.

Busquei demonstrar que nenhuma política de cota da face da terra resolve o problema da falta de base, e que a única política pública que tem chances reais de por fim a todos os problemas de desigualdade social é aquela que invista todos os recursos e esforços na perseguição de uma estrutura de ensino básico de alta qualidade, que ofereça a todos os brasileiros, desde o início, as mesmas chances de desenvolvimento físico e intelectual, para que depois o critério de crescimento social seja o mérito, e não a origem socioeconômica.

Nesta semana, pelo menos 3 fatos jornalísticos fizeram coro a minha tese, corroborando com dados incontentáveis:
A matéria intitulada “Nunca se escreveu tanto, tão errado e se interpretou tão mal”, publicada na Folha de São Paulo (16.07), baseada em pesquisa do Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ONG Ação Educativa, aponta, dentre outros dados esclarecedores, que apenas 22% dos brasileiros que chegaram à universidade têm plena condição de compreender e se expressar, e que 4% dos universitários estão no grupo de analfabetos funcionais.

No mesmo dia, foi publicada no G1 uma instrutiva matéria intitulada “Com crise e cortes na ciência, jovens doutores encaram o desemprego: ‘Título não paga aluguel’”, de onde destacamos:

(1) segundo dados da Capes, em 2006 o país atingiu a meta de formar 10 mil doutores e 40 mil mestres por ano, e que em 2014, o Plano Nacional de Educação estabeleceu uma nova meta: a formação de 25 mil doutores por ano até 2020 (algo baseado naquela ideia de “não temos meta, então vamos dobrar a meta”…).

(2) segundo relatório do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), entre 1996 e 2014, o número de programas de mestrado e doutorado triplicou no país, e foi registrado um “boom” na formação de mestres (379%) e doutores (486%) no período.

(3) o professor Marcelo Hermes-Lima, da UnB, afirmou que houve uma formação excessiva de doutores desde 2008 e que “a crise econômica empurrou muita gente sem real motivação científica para a universidade. Sem emprego, muita gente buscou refúgio na ciência, de olho nas bolsas”.

(4) Em depoimento à BBC News Brasil, o MEC afirmou que a expansão das universidades federais trouxe impactos significativos para o seu orçamento, que precisam ser compreendidos em sua plenitude, que essa expansão “foi realizada sem planejamento”, e que “o ano de 2014 foi influenciado pelas eleições e por um momento econômico em que a gestão anterior não mensurou os efeitos dos gastos exagerados e sem controle. Diversos programas aumentaram recursos fora da realidade, fazendo com que a própria gestão anterior iniciasse as reduções, a partir de 2015”.

Para compreender os impactos de toda essa falta de planejamento e irresponsabilidade fiscal eleitoreira, vale a leitura do estudo da Secretaria do Tesouro Nacional intitulado “Aspectos Fiscais da Educação no Brasil”, divulgado no início do mês, que compila dados ainda mais esclarecedores.

Segundo o documento, a despesa federal em educação quase dobrou no período de 2008-2017, passando de 4,7% para 8,3% . O Brasil gasta atualmente em educação pública cerca de 6,0% do PIB, valor superior à média das principais economias mundiais, e de pares como Argentina (5,3%) e Estados Unidos (5,4%). Cerca de 80% dos países, incluindo vários países desenvolvidos, gastam menos que o Brasil em educação.

Os números deixam claro que o problema não é falta de recursos. O problema é que tais recursos são usados de forma eleitoreira e para enriquecer “corriolas” que se beneficiam de programas como FIES para aliciar inocentes a se endividarem e endividarem o Estado comprando diplomas ilusórios em “trocentas” prestações.

Em 2017, a União gastou R$ 34,6 bilhões com educação básica e o DOBRO – R$ 75,4 bilhões – com educação superior.

Enquanto praticamente metade dos adolescentes está fora de nosso péssimo ensino médio, e a pequena parcela de nossas crianças que consegue vaga no ensino fundamental não encontra o mínimo de estrutura para seu crescimento – não tem onde sentar, o que comer, como chegar à escola, o que ler, o que estudar… nada – A opção de nossos governantes picaretas é o uso de nossos recursos públicos para a distribuição de “anéis de doutor”.

Ficaremos todos iguais ao smeagol? (my precioooooussss!)

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