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Lula não é a esquerda!

Por Edson Travassos Vidigal

 

Na semana passada, o filósofo Rui Fausto, professor emérito do Departamento de Filosofia da USP, considerado por muitos o principal teórico do marxismo no Brasil, concedeu entrevista à revista VEJA intitulada “A esquerda não é Lula”.

Na entrevista, o filósofo afirma, dentre outras coisas, que a saída para a esquerda brasileira passa necessariamente pela autocrítica, pelo abandono de vieses autoritários e populistas, e pela adesão a novas pautas, como o antirracismo e o feminismo, idéias que desenvolve em seu livro “Caminhos da Esquerda: Elementos para uma Reconstrução” (editado pela Companhia das Letras).

Fausto afirma ainda que se trata de hipocrisia falar de combate ao banditismo sem se tratar do problema da desigualdade, que seria a principal causa da violência. Cita a vereadora carioca assassinada recentemente como exemplo do novo caminho que a esquerda deveria seguir, baseado na crítica do modelo capitalista e na busca da democracia.

Afirma que a esquerda não é Fidel Castro, Lenin ou Chavez – a esquerda na sua origem e na sua essência, mas, sim, Marielle, nos moldes citados, pois, “apesar de certas patologias lamentáveis”, a esquerda “nunca significou autoritarismo e populismo”.

Questionado sobre o que seria a nova esquerda, respodeu que seria especificamente a crítica da desigualdade excessiva e a defesa da liberdade. Mostrar o absurdo de um sistema econômico que não funciona, pois mantém e aprofunda a desigualdade, e com ela a violência e o banditismo.

Ele afirma também que “o totalitarismo de esquerda, assim como o de direita, foi monstruoso” onde aconteceu. Reconhece que o stalinismo foi medonho, e que a China atualmente hospeda uma autocracia que junta o pior dos dois lados – autoritarismo e capitalismo selvagem. Que as experiências totalitárias foram regimes genocidas, criticados por pensadores da própria esquerda.

Fausto defendeu um modelo democrático sem capitalismo, onde a propriedade privada não fosse extinta, e nem mesmo o capital, ou os capitais, mas que estes fossem neutralizados a fim de que deixassem de ser a forma hegemônica. Acredita que o ideal seria uma sociedade em que houvesse mercados, mas na qual o capital fosse controlado de forma a estancar desequilíbrios exacerbados, por meio da tributação e da regulacão. Uma forma de social democracia.

Uma parte importante da entrevista trata da questão da Lava Jato, onde Rui Fausto afirma que parte da esquerda acha que a corrupção não importa se existe um projeto social em andamento. Um verdadeiro absurdo, ao qual ele se opõe.

A última parte da entrevista que gostaria de citar aqui quase na íntegra, é a resposta que ele dá à pergunta “A conduta de Lula colaborou para que houvesse a migração do eleitorado brasileiro para a direita?” A resposta, a meu ver, é esclarecedora: “Creio que sim, já que o PT fez a besteira de entrar na política vigente, a da promiscuidade entre público e privado. Ganhou fazendo alianças com partidos como o PMDB, e pagou um preço enorme. Seria melhor não ter entrado nesse jogo. Teria, hoje, uma imagem de prestígio. Não sei se estaria na Presidência, mas para que ter levado a Presidência e estar onde está agora? O PT, na origem, era um partido notável. Era contra o patrimonialismo, o populismo. Mas o PT queimou a esquerda. Fez coisas boas para o Brasil, mas, agora sabemos, sob condições terríveis. Por outro lado, a extrema esquerda tem nuances totalitárias, um apego a velhas ideologias, como o trotskismo e o castrismo, embora tenha também gente séria que pode evoluir. No PT, há populismo ou, mais precisamente, patrimonialismo. Mas os partidos vão e a esquerda fica.”

Recomendo a leitura da matéria na íntegra. De minha parte, concordo com muita coisa e acrescento algumas contribuições ao debate:

1- Penso que, na verdade, a desigualdade não é a causa da violência, mas que ambas são consequências da mesma causa: a falta de Educação em uma sociedade. Educação básica, educação moral, educação cívica, educação técnica, enfim, toda a educação necessária, tanto para que um indivíduo aprenda a viver em sociedade, a conviver com os demais, dentro de limitações às quais precisamos nos submeter para o convívio social, quanto para que o mesmo consiga sobreviver aos desafios naturais e sociais que se apresentam à sua sobrevivência e ao seu desenvolvimento enquanto ser individual e enquanto um membro da sociedade.

Não é dar conforto a alguém que impedirá que este aja com violência e desrespeito aos demais. Trate um animal selvagem como você trata um ser civilizado, e você verá que não fará nenhuma diferença em relação a seu comportamento violento. Quando ele quiser algo, tomará a força. Assim como uma criança que não recebeu educação adequada. Ela fará birra, usará a força para conseguir o que quiser, quando quiser. A falta de educação para a construção de limites à ação do próprio indivíduo é que traz como consequência a violência em sociedade. A falta de educação no sentido da consciência da alteridade, dos ideais de igualdade, de fraternidade, de valores tais como a tolerância, a meritocracia, a resignação, a perseverança, o espírito público, dentre muitos outros – isso é que gera tanto a violência quanto a desigualdade. Tal raciocínio requer espaço para seu desenvolvimento. Mas deixo aqui esses pequenos pedaços de pão na floresta sobre o mesmo.

2- Penso que, de fato, nem a “esquerda” é Lula, e nem Lula é a “esquerda”. Lula representa um momento da “esquerda” (como outros antes dele) que deve ser superado. A “esquerda” só se sustenta e tem o seu valor enquanto força ética purificadora contra as “velhas práticas” que nos impedem de seguir adiante.

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