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Há crises que vêm pro bem…

Por Edson Travassos Vidigal

Edson Travassos Vidigal

Quem acompanha o noticiário sabe que o PAC terá corte de R$ 7,4 bilhões com novo contingenciamento do governo. Do total retirado, R$ 5,2 bilhões serão contingenciados e R$ 2,2 bilhões serão realocados para outros órgãos e manutenção de serviços considerados essenciais, em áreas estratégicas, como a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, agências do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o sistema de controle do espaço aéreo e o combate ao trabalho escravo.

Com mais esse contingenciamento, chega a R$ 44,9 bilhões o total de verbas bloqueadas para 2017. É muito dinheiro? É sim.

De qualquer forma, apesar do alarde geral, principalmente da oposição e de todos os que já estão acostumados a mamar nas já tão murchinhas e caídas tetas do Estado, penso que são cortes necessários e, apesar de duros, bem vindos. Pelo menos para aqueles que entendem que para se ter uma casa em ordem, a primeira coisa a fazer é entender que sacrifícios são necessários para o início de hábitos saudáveis.

Não se consegue emagrecer e ganhar forma sem fechar a boca e parar de comer porcarias. Não se consegue adquirir saúde sem se exercitar rotineiramente, alimentar-se de forma regrada, descansar nas horas devidas e se abster de vícios e práticas nocivas.

Da mesma forma, não se consegue uma vida financeira saudável sem cortar gastos desnecessários (a começar pelos vícios) e sem que se tenha que se submeter a sacrifícios planejados, adiar sonhos, abrir mão até mesmo de investimentos desejáveis, e restringir ao mínimo do suportável todas as despesas.

Muitas vezes precisamos abrir mão de viver por alguns períodos, para nos concentrarmos em sobreviver até que tempos melhores cheguem, ou até que paguemos o preço pelas besteiras que fizemos, por tudo que plantamos de ruim, e que por mais que adiemos, uma hora temos que colher. E o pior é que quanto mais se adia, mais cara fica a colheita. Piores são os frutos que teremos que comer.

Não dá pra passar a vida no cheque especial, pagando um “aluguel mensal ordinário” do dinheiro que não temos (o nome disso é JUROS), e que nunca teremos enquanto ficarmos rolando a dívida infindavelmente. É um dinheiro que jogamos no lixo mensalmente. Que só serve pra alimentar especuladores financeiros a taxas altíssimas.

Não dá pra depender de cartão de crédito a vida toda, da mesma forma a juros altíssimos. O jeito é parar de ir ao cinema, trocar de escola por uma mais barata, mudar-se por um tempo pra um lugar mais barato, vender o carro e começar a andar de uber, de metrô, de ônibus, pegar carona. O jeito é cortar o cigarro, a cerveja, as saídas pro boteco, pro restaurante, comprar menos roupas, se virar com as que tem, aproveitar pra emagrecer comendo menos porcarias, adiar as viagens de férias, o presente que a gente quer dar pros que amamos, aquele que a gente quer se dar porque morremos de trabalhar e merecemos. Até mesmo, se temos um imóvel que está muito difícil pagar, botar na ponta do lápis e verificar se o melhor a fazer não é mesmo vender. Muitas vezes temos que dar um passo atrás pra poder voltar a darmos passos pra frente.

Eu tinha um professor de processo civil, de “processo de execução” (os procedimentos pelos quais se obriga alguém, por meio do Estado, a cumprir uma obrigação legal), que dizia que, quem deve, fica escravo do credor da dívida. E isso nunca me saiu da cabeça. Ele estava certíssimo. Enquanto devemos, somos escravos. Não temos liberdade. Sempre teremos uma espada flutuando sobre nossas cabeças, que pode a qualquer instante despencar em nós. Não se tem paz. Não se tem forças. Não se tem possibilidades de ir em frente, de avançar, de crescer. Estamos presos. Somos de fato escravos.

E isso acontece conosco tanto enquanto indivíduos, quanto enquanto cidadãos. Pois enquanto nosso Estado gasta mais do que tem, enquanto recorre a empréstimos, a rolagens de dívidas, do “cheque especial”, a juros altíssimos, aumenta cada vez mais sua dívida e nos faz cada vez mais escravos daqueles para quem nosso Estado é devedor.

E por isso acaba que quem manda em nosso Estado, e consequentemente em nós todos, não somos nós, cidadãos. São, claro, os credores do Estado. Os credores de nosso país, de nossa nação, de nossos governos. Os bancos nacionais e internacionais, as empreiteiras, os fundos de investimento, e todos aqueles que devemos.

Pois enquanto devemos, eles dão as cartas, eles decidem como e quando poderemos pagar, a que juros, de que forma, e a cada vez que não temos como pagar o acordado, ou pior, que precisamos de mais dinheiro, precisamos nos submeter a mais e mais exigências e imposições, algumas legítimas e muitas nem tanto, ou mesmo absolutamente ilegítimas. Com certeza nenhuma delas boa para nós, até porque ninguém, tirando um ou outro santo que aparece de vez em quando (e é invariavelmente crucificado) investe dinheiro por caridade, para fazer o bem. Investe-se dinheiro, claro, para ganhar mais dinheiro em troca.

O fato é que toda crise é uma oportunidade para se superar e crescer. E há crises que aparecem em épocas cruciais e são absolutamente necessárias para a continuidade de um projeto. E o projeto de um país chamado Brasil, formado por um povo alegre, pacífico, musical, eclético, criativo, bem humorado, bem intencionado e esperançoso chamado de brasileiro, depende muito nesse momento de uma ação responsável de todos nós, cidadãos, para que façamos a nossa parte e cobremos de nossos governantes, com afinco, que eles façam a deles. Sacrifícios devem ser feitos, mas o exemplo deve vir, também, de cima.

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