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Fugindo da crise de carona no Uber

Por Edson Travassos Vidigal

Edson Travassos Vidigal

Não quero entrar em discussões com ninguém, sobretudo com taxistas. Mas tenho pensado muito sobre como estaria a situação de milhares de brasileiros se não existisse o Uber – o polêmico aplicativo internacional de carona que vem comprando briga mundialmente com os serviços de taxi, colocando em xeque a questão da legislação de cada país no tocante ao tema de regulamentação de serviços de transporte privado de passageiros. Quem me conhece bem sabe que sempre tive um pé atrás quanto ao uso desse serviço, e me recusava mesmo a utilizá-lo. E meus motivos sempre foram ligados a dois quesitos principais – segurança e justiça.

Segurança porque sempre tive em mente um modelo de regulação estatal onde são concedidas licenças para a prestação de determinado serviço à sociedade a partir da adequação, de quem pretende prestar tais serviços, a rígidas normas que tenham por objetivo garantir a segurança dos usuários de tais serviços – a população, claro. E justiça, porque sei que existem pessoas que pagaram verdadeiras fortunas (dentro de suas limitações) e se submeteram a imensos sacrifícios para se adequar a tais regras, e, mais ainda, para terem conseguido a boa vontade (seja a que custo tenha sido) das autoridades no sentido de terem alcançado uma licença de taxista. E considero injusto existirem dois pesos com duas medidas diferentes para todos os cidadãos, que devem ser sempre tratados de forma igual perante a lei, sem que haja sacrifícios injustos a uns e privilégios injustos a outros.

Mas tive que me render a diversas constatações práticas do dia a dia. A primeira, e talvez maior de todas, e que não precisa de muita explicação, sobretudo a partir de tudo o que finalmente está sendo revelado diariamente a toda a população a partir do advento das diversas operações da Polícia Federal, é que o serviço de taxi, assim como diversos outros serviços que dependem de autorização, concessão ou licenciamento por parte do Estado, ou mesmo que são considerados como exclusivos de prestação estatal, a exemplo do serviço de correios, pra citar o exemplo mais paradigmático, acabaram se tornando monopólios de um Estado vendido a um sistema corrupto e ineficaz, que premia não o mérito e a adequação ao que a sociedade precisa e demanda, mas sim a capacidade de se entregar à grupos políticos que têm por única meta a perpetuação no poder e a divisão dos lucros por tal permanência dentre os membros de tal grupo.

É fácil constatar que a fiscalização de tais serviços é feita como a de um galinheiro por uma raposa. E com isso não estou acusando pessoas, até porque sei que existem as honestas e as desonestas em qualquer lugar, em qualquer sala, em qualquer serviço. Estou simplesmente dizendo como o sistema funciona. E quem é honesto sabe disso, como quem é desonesto sabe da mesma forma (difícil é alguém, de um lado ou de outro, encontrar coragem ou conveniência em dizer em alto e bom tom).

Infelizmente, o fato é que nossas agências reguladoras, bem como os órgãos responsáveis pela fiscalização, licenciamento, normatização etc. dos serviços públicos e privados em nosso país não funcionam como deveriam funcionar. E o fato é que monopólios, como qualquer estudante iniciante de economia muito bem sabe, são falhas de mercado que não fazem bem para nada. Muito pelo contrário, só servem para a prática de abusos. No caso, para a prática de abusos justamente por quem deveria defender os cidadãos deles – o Estado.

A segunda constatação prática que me tem feito pensar muito sobre o assunto, e até cogitar de realizar um estudo acadêmico sobre (quem tiver tempo e interesse, deixo aqui a idéia), é o fato de que o aplicativo Uber, em meio à nossa crise econômica (e política e moral), nunca antes vista na história desse país (diga-se de passagem), tem se tornado um esteio para a sobrevivência de brasileiros que se encontram desempregados justamente, e principalmente, em decorrência da forma corrupta pela qual nosso Estado vem se conduzindo por tanto tempo, sobretudo na condução de tais serviços, concessões, licitações, licenciamentos, regulações etc. E esse desemprego não é setorial, não depende de classe social, de nível educacional, de idade, de sexo, de cor, de nada. É um desemprego bem democrático, que como eu disse anteriormente, é muito em decorrência justamente da corrupção do Estado.

E qualquer um que ande de Uber (e deixo aqui meu testemunho e minha sugestão para que quem não anda comece a andar), sabe que encontrarão como motoristas, em carros os mais variados, inclusive alugados para este fim ou emprestados de parentes ou amigos, pessoas as mais variadas, com as mais variadas histórias de vida. De gente sem o mínimo de educação formal até doutores, empresários, gerentes, advogados, professores, gente de todo tipo.

Mas todos tendo em comum estarem enfrentando a maior de todas as crises financeiras que já viveram em suas vidas. Tendo em comum não conseguirem recolocação no mercado de trabalho dentro das profissões para as quais se prepararam e investiram muito em tempo e dinheiro durante suas vidas. Tendo em comum a necessidade de sobrevivência, sua e de seus familiares, seus filhos, suas esposas, seus maridos, seus pais. Todas tendo em comum a humildade e a decência necessárias para trabalhar, seja com o que for, de forma honesta, na contramão de nosso Estado tomado pela corrupção, e dos tolos que o governam, que nos governam. Penso que o Uber apareceu neste momento nos dando oportunidade para muitas reflexões. A maior delas: Será que isso tudo do jeito que está ainda dá pra continuar?

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