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Acabou chorare…

Por Edson Travassos Vidigal*

Edson Travassos Vidigal

“Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor. Eu fui à Penha, fui pedir a Padroeira para me ajudar. Salve o Morro do Vintém, Pendura a saia eu quero ver. Eu quero ver o tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar. O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada. Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato. Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará. Na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô, iaiá. Brasil, esquentai vossos pandeiros. Iluminai os terreiros que nós queremos sambar…”

Com esse hino à nação batuqueira brasileira intitulada de “Brasil pandeiro”, os novos baianos abriam seu disco “Acabou chorare”, lançado em 1972, praticamente no auge da ditadura militar.

Atualmente o grupo baiano, que é mais uma comunidade hippie tupiniquim do que um conjunto musical, encontra-se em turnê que leva o mesmo nome do célebre disco que é marco da música brasileira.

Um dos shows dessa turnê aconteceu neste sábado passado em Brasilia. Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Moraes Moreira e Paulinho boca de cantor – os velhos “novos baianos” se encontraram cada vez mais jovens e adolescentes, e fizeram o ginásio Nilson Nelson reviver e viver (as novas gerações) sentimentos de uma brasilidade que parece não cansar de insistir em acontecer.

Em seu livro “Novos baianos” (editora Lazuli, 2014), Luiz Galvão, um dos fundadores da lendária banda, contou a história da composição da música “Acabou chorare”, que dá nome ao projeto. Como narra a música, uma abelhinha entrou mesmo na casa dele e pousou em sua mão. O título foi inspirado numa história de João Gilberto com a filha ainda pequena (Bebel Gilberto). Bebel levou um tombo feio e chorava muito, mas ao perceber a preocupação do pai, segurou o choro e disse: “acabou chorare, papai”.

A capacidade de transformar em arte as belezas mais lindas do dia a dia é inerente ao brasileiro, e parece que, sobretudo, aos nordestinos, que dependem mesmo de uma visão poética da vida pra sobreviverem ante tantas desgraças e desventuras em sua tão sofrida vida. A riqueza musical e poética dos novos baianos nos eleva a um estado de satisfação onde relembramos os verdadeiros e melhores valores da vida.  Com eles, sentimos suas canções, que foram por eles vividas e muitas vezes até experimentadas também por nós mesmos.

Aqui em Brasília (escrevo essa apologia de nossa “capital da esperança”),  cantaram“Dê um rolê”,  “Preta pretinha”,  “A menina dança” e “Mistério do Planeta” dentre outros clássicos “novo-baianenses”. Moraes Moreira cantou “Chega de saudade” de Tom Jobim e Vinicius de Moraes e, momentos antes, recordou que  “os novos baianos surgiram da primeira vez em meio à Ditadura e ressurgem agora para clarear novamente o Brasil”

Certamente, a poesia do grupo transmite aos quatro cantos do país uma esperança que precisamos para seguir em frente. A alegria de um povo sofrido que não perde a ginga, que não deixa de viver no único mundo que tem ao alcance. Mas precisamos lembrar que nosso mundo, nossa sociedade, nossa política, nosso país, tudo isso pode ser muito melhor. E precisamos lembrar que “pra ter outro mundo é preci-necessário viver!”. E besta é quem não entende isso, como muito bem explica os versos lindos da música “Besta é tu”:

Porque não viver?

Não viver esse mundo

Porque não viver?

Se não há outro mundo

Porque não viver?

Não viver outro mundo…

E pra ter outro mundo

É preci-necessário

Viver!

Viver contanto

Em qualquer coisa

Olha só, olha o sol

O maraca domingo

O perigo na rua…

O brinquedo, menino

A morena do rio

Pela morena eu passo o ano

Olhando o rio

Eu não posso

Com um simples requebro

Eu me passo, me quebro

Entrego o ouro…

Mas isso é só

Porque ela se derrete toda

Só porque eu sou baiano…

Besta é tu! Besta é tu!

Fechamos nosso encontro semanal com a frase com a qual abrimos nosso artigo: “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”, porque precisamos logo, o quanto antes, segurar o choro e buscar outro mundo. Precisamos logo de um “Acabou Chorare” para nosso Brasil.

* Edson José Travassos Vidigal foi candidato a deputado estadual em 2014 e, por convicção política, de forma intransigente, nunca aceitou doações de empresas. É advogado membro da Comissão de Assuntos Legislativos da OAB-DF e da Comissão Especial de Direito Eleitoral da OAB-SP. Professor universitário de Direito e Filosofia, músico e escritor. Especialista em Direito Eleitoral e Filosofia Política, foi servidor concursado do TSE por 19 anos. Assina a coluna A CIDADE NÃO PARA, publicada no JORNAL PEQUENO todas as segundas-feiras.

Leia mais: http://jornalpequeno.blog.br/edsontravassosvidigal/2017/06/18/o-presente-e-uma-dadiva/#ixzz4liGNGupo

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