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O presente é uma dádiva!

Edson Travassos Vidigal

Por Edson Travassos Vidigal*

 

No momento, nosso maior inimigo é nossa mente. Ela é poderosa, rápida, e se considera ilimitada. Ela constrói e destrói em frações de segundo. Ela voa longe, atravessa o mundo repetidas vezes. Na tentativa de alcançá-la, seguimos inconscientemente seu rastro e acabamos nos tornando escravos de uma ave descontrolada, perdida, sem rumo, sem objetivo. Vamosi aonde quer que ela queira, mas ela não sabe o que quer ou onde quer chegar. Nossa mente, apesar de finita, quer abraçar o mundo todo de uma só vez. Quer abraçar o infinito. Como algo finito pode abraçar o infinito?

 

Devemos subjugá-la, mantê-la sob controle. Nós que devemos ser os mestres, não o contrário. Não tentemos alcançá-la. Será inútil. Paremos, esperemos e deixemos que ela venha até nós. Em uma de suas infinitas idas e vindas pelo todo, ela chegará. E quando isso acontecer, a pegaremos de surpresa, montaremos em suas costas aladas e a conduziremos rumo a seu objetivo. E ela nos será grata por termos salvado-a de sua deriva, de seu perdido vai e vem infinito de ilusões e falsos objetivos. E assim se tornará uma poderosa aliada contra os monstros que precisaremos enfrentar emnossa jornada.

 

Pare. Relaxe. Sinta a sua respiração, sinta o seu corpo, sinta o vento tocando a sua pele, sinta os sons em sua volta, sinta o contato com toda a beleza a sua volta, de toda a vida em sua volta. Sinta-se parte de toda essa beleza. Contemple o todo.

 

Preocupe-se com o agora. Esqueça o passado e o futuro. Viva o presente. O presente é agora. O presente é momentâneo e fugaz. O presente é um breve instante. Um fino espaço de tempo que é frágil e raro por sua beleza única e irreproduzível. A beleza do presente não volta. Não podemos recriá-la, repeti-la. Não podemos vivê-la de novo. As imagens que criamos dela nada mais são do que cópias imperfeitas, que só aumentam nossa insatisfação por não tê-las inteiras. Esqueça as imagens do presente que já se foi. Já é passado e não existe mais. Não se preocupe com o presente que virá. O futuro nunca chega, ele nunca será vivido. Ele nunca virá. Ele não existe. Ele nada mais é do que expectativas que criamos. Desejos e medos que projetamos para frente precipitadamente. O futuro nada mais é do que preocupação, ou seja, ocupação prévia.

 

Não devemos nos ocupar com algo que não existe, sob o risco de não podermos nos ocupar com o que existe. Se nos ocupamos com o que ainda não chegou e nunca chegará, perdemos a chance de nos ocupar do momento. Do raro e breve instante que se esvai por entre nossos dedos a cada vez que não o percebemos. E como grãos de areia, vão um a um sendo perdidos, sendo deixados para trás. E eles nunca voltarão. Para os que os perdem, eles nunca serão nada mais do que areia levada pelo vento a formar dunas infindáveis de momentos que nunca foram vividos, e nunca serão.

 

O futuro não existe e nunca existirá. O passado não existe e nunca existiu. Nós o inventamos com mentiras e explicações equivocadas que criamos por não sabermos viver o presente. O presente que é a única coisa que existe. É a única coisa que importa. É o único lugar onde podemos estar e é o único lugar onde podemos viver, aprender, crescer. É o único lugar onde podemos nos tornar fortes o suficiente para derrotar nossos maiores inimigos, nossos maiores temores. E é o único lugar onde podemos construir. Pois só o que construímos é o que fica. O que construímos não vira passado, continua sempre sendo presente. O que construímos não vira futuro, se perpetua e continua no presente mesmo depois que nossas vidas tenham fim. O passado e o futuro são consolos ilusórios que criamos por não sermos capazes de viver o presente, de agir no presente, de construir no presente. São ilusões que criamos que nos sufocam, nos afligem, nos assustam, nos fazem sofrer e nos tornam fracos. São fantasmas a nos atormentar a alma. São subterfúgios da mente. São miragens no deserto de nossas certezas.

 

Por hora, fujamos do passado, do futuro, de nossos pensamentos. Não tentemos viver o que já passou, nunca conseguiremos. Já perdemos nossa chance. Não tentemos viver o que virá, o que virá nunca chegará, e continuaremos perdendo o momento. Vivamos o momento, o agora. As infinitas chances que nos chegam a cada instante. As chances que temos de viver, de crescer, de mudar, de nos transformar.

 

Não tentemos consertar o que passou. O que passou, passou. Não podemos mudar. Não podemos mudar o que fomos. Já passou também. Não somos mais o que fomos. Podemos mudar o que somos agora. Podemos mudar o que fazemos agora. Podemos mudar o que fizemos e ainda existe. O que realizamos. O que foi construído. Podemos desconstruir o que construímos e não deu certo. Podemos deixar de ser o que nos tornamos e não deu certo. Podemos o que quisermos. Mas apenas no presente. O passado não nos pertence. O futuro não nos pertence. Eles não pertencem a ninguém. Eles não existem. O presente nos pertence. Dele somos senhores e podemos fazer o que quisermos. O que fizermos ficará. O que gostaríamos de ter feito nunca existirá. Será sempre mais um fantasma do passado a nos atormentar.

 

Relaxe, respire, sinta o presente, faça parte dele. Fuja de seus pensamentos perdidos em idas e vindas pelo passado e pelo futuro. Pare de se preocupar e se ocupe. Pare de sonhar em um mundo de ilusões e viva a realidade. Viva o presente. O presente, como o próprio nome diz, é uma dádiva, um dom que recebemos de ter o controle de nossas vidas e de nossas ações. O dom de podermos, a cada instante, escolher viver.

 

* Edson José Travassos Vidigal foi candidato a deputado estadual em 2014 e, por convicção política, de forma intransigente, nunca aceitou doações de empresas. É advogado membro da Comissão de Assuntos Legislativos da OAB-DF e da Comissão Especial de Direito Eleitoral da OAB-SP. Professor universitário de Direito e Filosofia, músico e escritor. Especialista em Direito Eleitoral e Filosofia Política, foi servidor concursado do TSE por 19 anos. Assina a coluna A CIDADE NÃO PARA, publicada no JORNAL PEQUENO todas as segundas-feiras.

Leia mais: http://jornalpequeno.blog.br/edsontravassosvidigal/2017/06/04/qual-sera-o-fim-do-foro-privilegiado/#ixzz4kN5lPWbp

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