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A carne está fraca porque a alma foi vendida…

Edson Travassos Vidigal

Por Edson Travassos Vidigal*

A piada da moda desde a última semana é a que a carne da Friboi contem pelos do Tony Ramos. No Brasil, não se perde o hábito (extremamente prejudicial a cada um de nós, por mais que não tenhamos consciência disso) de não levar nada a sério. E tudo acaba virando piada e risos nas mesas de bar (e agora nas redes sociais), ao invés de nos levar a tomar partido e se empenhar na resolução dos problemas.

O escândalo da vez (e nem foram resolvidos os demais escândalos em andamento) é o resultado da operação da Polícia Federal batizada de “Carne Fraca”. E isso, vale frisar, em meio ao início de mais um escândalo – a tentativa, por parte da cúpula do Executivo, do Legislativo e do Judiciário de “desconstitucionalizar” o Direito Eleitoral, e passar a toque de caixa reformas que até 2018 salvem as carreiras dos digníssimos que lá se encontram em risco de, não só perderem seus cargos, e seu poder, como de irem parar no xilindró em companhia de outros colegas que lá já se encontram em decorrência de outra operação da PF – a tal da “Lava Jato”. Mas isso eu deixo para falar na próxima semana, em vista da urgência da carne fraca.

Uma primeira observação que faço é que, a partir do ocorrido, percebemos que não só a carne que é comercializada no Brasil (e seus derivados) é fraca (e perigosa à saúde), mas também a carne de diretores dessa indústria, de fiscais, de políticos, advogados, empresários e mesmo acionistas, dentre outros, que, de uma forma ou de outra, deixaram se corromper, prostituíram-se, venderam suas almas em troca do “vil metal” (que hoje em dia é virtual e não passa de um numerário relativo a créditos que são gerados a partir da produção de nada, tendo origem praticamente apenas da especulação financeira).

Uma segunda observação é que muita coisa do que o brasileiro está alarmado, perplexo e indignado em relação à comida que comemos, na verdade é procedimento normal e compatível com o que permite a nossa legislação nacional, fruto de nosso sistema eleitoral, que elege representantes não dos cidadãos, mas das empresas que financiam suas campanhas, seja legalmente, antes por meio de doações de pessoas jurídicas, seja ilegalmente, por meio de laranjas e caixas 2 (prática que tem sido defendida como “opção das empresas” e outros absurdos imorais por pessoas as quais não se pode duvidar de que disponham de tal atributo). A nossa legislação, no que diz respeito à alimentação, é uma das piores do planeta, e passa a mão na cabeça de práticas que não são aceitas de forma alguma em países civilizados acima da linha do equador. Não aceitas por suas agências reguladoras, e, principalmente, não aceitas pelos consumidores, que mais conscientes e mais informados, simplesmente rejeitam tais produtos e obrigam as empresas a os rejeitarem sob risco de não terem consumidores. Os mesmos produtos que compramos aqui são bem diferente dos que compramos na Europa. Quem viaja e é atento aos rótulos sabe disso.

Outro ponto importante é relativo aos comentários apocalípticos feitos por parte dos tais “defensores da economia”, dizendo que esse tipo de notícia e de operação da PF é um ataque ao país, porque quebra o mercado, gera baixa na bolsa, desvalorização da moeda, acaba com as exportações, gera desemprego etc. Nem peço desculpas a estes por discordar de discursos que preguem a ilegalidade, a imoralidade e a impunidade como meios para preservar a tal da “economia”.

O sentido da economia, bem como de qualquer prática social, é um só: o homem em si, a sua dignidade. E isso não é só filosofia, é o princípio basilar de todo o Estado moderno, e está em nossa Constituição.

O motivo pelo qual existe a atividade empresarial, e pelo qual ela é garantida e estimulada pelo Estado, por diversos mecanismos, é justamente a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, e a evolução da sociedade. Os tais defensores da tal da “economia” (este ente disforme pelo qual parece que todos nós atualmente nascemos, crescemos e morremos, tais como o gado da Friboi) se esquecem disso em seus discursos neoliberais ou “libertários” como gostam atualmente de serem chamados. E o problema atual do mundo inteiro e de todas as democracias em crise é justamente esse: Transformaram a economia em fim, e a humanidade em meio. Esqueceram da Ética e só se lembram da Matemática.

Se passamos a mão na cabeça de empresas, empresários e acionistas a cada “deslize”, estimulamos, pela relação custo-benefício, que estes continuem “deslizando” em busca do lucro. Este não é o fim a que se destina a atividade empresarial (ver art. 170 da CF). Se queremos empresas que atendam a seus fins sociais, e gerem lucros para seus acionistas de forma justa, precisamos que os acionistas imponham a ética às empresas que investem, para que não corram riscos de perdas. E isso só se consegue impondo penalidades severas não só para os gerentes e diretores, mas para as empresas em si. Penalidades que repercutam nos acionistas sim. Só assim teremos empresas que atendam às demandas éticas da sociedade, a que mantém a atividade empresarial, seja enquanto consumidora, seja enquanto conjunto de cidadãos que mantém o Estado, sem o qual não existiria nenhuma atividade empresarial, muito menos empresas, ou acionistas.

A carne de todos nós está fraca, porque nossa alma está sendo posta à venda desde antes de nascermos. Precisamos reverter esse processo., antes que sejamos apenas “carne de cabeça” misturada na linguiça…

* Edson José Travassos Vidigal foi candidato a deputado estadual em 2014 e, por convicção política, de forma intransigente, nunca aceitou doações de empresas. É advogado membro da Comissão de Assuntos Legislativos da OAB-DF e da Comissão Especial de Direito Eleitoral da OAB-SP. Professor universitário de Direito e Filosofia, músico e escritor. Especialista em Direito Eleitoral e Filosofia Política, foi servidor concursado do TSE por 19 anos. Assina a coluna A CIDADE NÃO PARA, publicada no JORNAL PEQUENO todas as segundas-feiras.

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Uma resposta para “A carne está fraca porque a alma foi vendida…”

  1. antonio muniz disse:

    Nossa economia nossa gente
    Infelizmente o brasileiro está dividido entre carne podre e carne de cabeça. Sendo do interior deste estado, sempre ouvi alguns adágios que me ficara na memória, mas nenhum deles como este , quando alguém queria depreciar alguém: Fulano é Carne de Cabeça! Agora, descobri que depois de tantos escândalos econômicos, políticos e financeiros, quando pela ação da “Classe Política” o emprego foi embora , a economia se deteriorou, o que havia de mais significativo neste momento de crise era a atividade agropastoril, mas também ela está sob a ameaça por conta de maus empresários, capitaneados por maus agentes públicos que seguem orientação de maus políticos. No Brasil, só existe agentes empresarias maus, porque existe maus agentes públicos sob a orientação de maus políticos. É claro que esse problema envolvendo agentes públicos tem sido recorrentes, de forma que sempre existiu e sempre existirá, mas, não com a intensidade que agora estamos vendo, sentindo e vivendo no dia a dia. Para quem é cristão, o sempre que ler a Bíblia, se depara com uma passagem em Mateus que descreve as condutas inusitadas dos discípulos de Jesus, quando Ele diz: O espirito é forte ,mas, a carne é fraca…Será se essa passagem bíblica era para justificar nossos desejos sexuais, ou ela é mais abrangente???A operação Carne Fraca da polícia federal tem a palavra. É claro que a Polícia Federal está se referindo ao estado de decomposição em que nossos agente públicos estão…Desde o início das operações da Polícia federal o que fica claro , que todo o sistema de assédio a agentes financeiros e empresarias, partem sempre de agentes públicos, e em sua grandeza em conluio com políticos. A Operação Lava Jato ao desvendar, todo esse esquema de corrupção fica provado que sem os agentes públicos corruptos não haveria corrupção empresarial. Se hoje se debate muito que empresas transnacionais com o selo Brasil estão sendo destruídas, tudo se deu por conta dos achacadores políticos que no afã de continuarem no poder, obrigam empresários poderosos ou não a se juntarem nessa saga de sacanagem que infelizmente afeta a todos. Se não houvesse políticos do naipe de Lula , de Gedel , de Aécio, Gleisi Hoffmann , Cabral e da “Cabrália maranhense” aos , os empresário tudo culta do esquema criminoso Palaciano. A lei que protege políticos safados do Tipo Renan Calheiro, Waldir Maranhão, _o famigerado Foro Privilegiado_, é outro Ácido Ascórbico, que mascara toda atividade bandida de parlamentares e executivos públicos incrustados nas esferas do poder nos entes da federação. A Operação Carne fraca, serve muito mais como alerta que sempre teremos que está em constante vigília , visto por traz de muitas atividades econômicas , pode haver um agente público apanhado com a boca na botija. Que o Presidente venha a público fazer meia culpa, ou o Ministro da agricultura insinuar que a PF fez sensacionalismo, que por causa disso o brasil pode perder mercado, é desculpa esfarrapada. As mesmas coisas o Site 247, diz que a PF com suas investigações está liquidando com o emprego e com a economia do País … Com ácido ascórbico ou não o brasileiro precisa comer carne de primeira… Com carne fraca ou não, o Brasil tem que ser passado a limpo.

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