LEITURA-VOX: uma caminhada incessante no universo do Saber

 

Dinacy Corrêa

O universo é um texto; e o texto é um universo. (Paulo Freire)
A leitura do mundo precede a leitura da palavra. (Paulo Freire)
Ler é perceber, captar, transformar… re-ve-lar. (Dinacy Corrêa)

Insistindo, persistindo (jamais desistindo) no ideário do imortal Paulo Freire, cujos postulados (acima epigrafados) inspiraram o tema/lema/rema deste Curso/Projeto de Extensão (PIBEX-UEMA – já recentemente aprovado em sua versão VII ), o Leitura-Vox é um curso que valoriza e prioriza a leitura em voz alta, destinando-se aos alunos (em especial aos de Letras e Pedagogia) e funcionários da UEMA, estendendo-se à comunidade circunvizinha e em geral. Trata-se, como bem o disse o Professor José Geraldo Bogéa (encerramento do LV-I), de uma “autêntica atividade de extensão universitária, como tantas outras em que a Uema vem cumprindo o papel interinstitucional de levar para a sociedade o conhecimento, como forma de assegurar a cidadania a todos”. Atividade promovida pelo Departamento de Letras-CECEN e que tem por objetivo o aprimoramento da Leitura, o aperfeiçoamento da oralidade, com ênfase na comunicabilidade da voz, imposta pelo ritmo da frase e pela interpretaimagem6ção do texto.
Curso que se tem desenvolvido com sucesso, desde 2006, sempre muito procurado e recomendado, e que nasceu da nossa constatação (no exercício do magistério de Língua e Literatura, no Ensino Médio e Superior) de que os nossos discentes (secundaristas e universitários, em geral), não se estão desempenhando a contento nas atividades de leitura/interpretação/comunicação (oral e escrita) ou simplesmente lendo mal: atropelando as palavras, sem uma boa dicção, entonação/pontuação corretas, sem equilíbrio entre ritmo respiratório e articulação verbal, quebrando, sintática e semanticamente as frases, sem a devida sintonia entre texto e contexto… Enfim, sem condições de entender, eles próprios ou fazerem entender, aos seus ouvintes, o texto em leitura.

imagem5

A proposta do Leitura-Vox é, pois, despertar, conscientizar os seus cursistas para esse fato constatável; ensiná-los, na prática, a ler corretamente, mostrando a beleza e a utilidade da prática da leitura. Do sensorial para o discursivo ou “da leitura do mundo para a leitura da palavra”, em seu processo de desenvolvimento, em seu roteiro de atividades, o LV configura-se, também, como uma viagem cultural (e literária), através da leitura/escrita, em seus referenciais históricos, partindo (através dos textos) da mais remota Antiguidade, aos nossos dias. Os textos escolhidos perfazem, em si mesmos, todo um percurso, sincrônico/diacrônico que referencializa a história da leitura e da escrita, do livro… da linguagem/comunicação em seu circuito evolutivo, ou seja, a própria caminhada humana, na produção do conhecimento, na busca e transmissão/divulgação do Saber. Os textos são lidos e relidos, da heurística para a hermenêutica, cada leitura com um nível de percepção e aprofundamento da compreensão da sua estrutura e mensagem. No final, os participantes têm, além de um curso de leitura, em nível diccional (incluindo revisão gramatical), num desenvolvimento e aperfeiçoamento da oralidade, também um curso de literatura geral e um aprofundamento cultural… (mais…)

LITERATURA LATINA: O Asno de Ouro

  O Asno de Ouro – Lucius Apuleio: resumo[1]

Dinacy Corrêa

Byzantinischer_Mosaizist_des_5._Jahrhunderts_002

apoleio

Um mix de realismo e fantástico-maravilhoso, a denotar a competência narrativa de Apuleio de Madaura (125-180/Sec.II d.C.), no seu condão de transformar a mágica aventura de seu protagonista (o incrível Lúcio), em um dinâmico e extenso relato de excelente/surpreendente compasso/tonalidade, resultantes da sábia aliança entre um roteiro novelesco a desfiar os sucessivos episódios de viagem, os contos de terror e os relatos de artimanhas e engodos femininos. No patético/cômico de uma aventura cheia de peripécias, culminando com um final feliz (a que se somam a graça das micronarrativas que se intercalam à macronarrativa, como o famoso de “Cupido e Psiquê”), a obra reveste-se de um atrativo literário sem precedentes.

Originalmente, O Burro de Ouro ou Metamorfoses – um labirinto meio desconexo de narrativas variadas – o que levou Jorge Luís Borges a escrever, no Prólogo à novela La Invención de Morrel (de Adolfo Bioy Casares) sobre El temor de incurrir en la mera variedad sucesiva Del Asno de Oro.

32668_316

O enredo desenrola-se num tempo/espaço ficcional a contemplar o Império Romano, nos primeiros séculos da Era Cristã. Lucius, o protagonista/narrador, em viagem de negócios a Tessália, hospeda-se em casa do avarento Milo (ou Milão, proeminente cidadão e seu amigo particular), na cidade de Hipata. Corre, pela boca do povo, rumores de que Pânfíla, esposa de Milo, dentre suas muitas habilidades (incluindo-se nestas a de degustar jovens), é uma competente bruxa, versada na magia, apta a se transformar em diferentes criaturas, sempre para fugir, disfarçada, de casa, e sair à procura de jovens, pela cidade, mantendo com estes, relações extraconjugais. Notório, também, é que ela transforma os que a desagradam em coisas ou seres estranhos, tais como pedras e vacas. Dando asas a sua curiosidade, em relação a tais prodígios, Lucius, no intuito de unir o útil ao agradável, vem a seduzir Fotis (a lúbrica criada de seus anfitriões), convencendo-a a levá-lo, secretamente, ao quarto de Panfília (ambiente de realização dos sortilégios). (mais…)

Literatura Latina: Confissões – Santo Agostinho

um clássico da teologia cristã e da literatura universal

imagesconfissoes+santo+agostinho+piracicaba+sp+brasil__52A735_1DMCorrêa

Não caminheis em glutonerias e embriaguez nem em desonestidades e dissoluções nem em contendas e rixas, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis a satisfação da carne com seus apetites. (Ep. de Paulo aos Rom. 13:13-14)

SANTO AGOSTINHO-biobibliografia

Escritor, reconhecido teólogo e filósofo cristão, padre latino e doutor da Igreja Católica (na qual é considerado Santo, bem como na Anglicana). Patrono da Ordem Agostiniana, Aurélio Agostinho de Hipona (em latim: Aurelius Augustinus Hipponensis), nasceu em Tagaste (Souks Ahras – à época uma província romana ao Norte da África, na atual Argélia – em 13/11/354-dC; e faleceu em Hipona-Argélia, em 28/08/430-dC. Filho de Mônica, uma mulher cristã (Santa Mônica, na Igreja Católica) e de Patricius Aurelius, pagão. Educado no Norte da África, ali resistindo aos ensinamentos de sua mãe, para se tornar cristão, trata-se, não obstante, de uma das figuras mais importantes no desenvolvimento do Cristianismo, no Ocidente. Bispo de Hipona, tendo produzido suas obras na era patrística, foi o mais célebre dos padres da Igreja ocidental. A Cidade de Deus e Confissões, obras de sua autoria, ainda são muito estudadas, até hoje. Protestantes (de modo especial, os calvinistas), o têm como um dos precursores da teologia da Reforma, sobretudo no postular da salvação e da graça divina. Na Igreja Ortodoxa Oriental (onde é chamado “Agostinho Abençoado”), é celebrado/festejado (15/06) – ainda que uma minoria o tenha como herege (por suas mensagens sobre o que se designou a cláusula filioque).

De início, muito influenciado pelo maniqueísmo e pelo neoplatonismo (Plotino), ao tornar-se cristão (387 dC), começa a pensar e a transformar-se, vindo, assim, a criar sua própria abordagem, no que tange à Filosofia e Teologia, e uma variedade de métodos e perspectivas diferentes. Aprofunda o conceito de pecado original (dos padres seus antecessores) e quando o Império Romano do Ocidente começa a se desintegrar, postula o conceito de Igreja como a cidade espiritual de Deus (em obra homônima), distinta da cidade material do homem. O pensamento desse teólogo/filósofo amplia e aprofunda a visão dos tempos medievais. A Igreja (como também a comunidade) identifica-se com essa ideia conceitual de “Cidade de Deus”. Pode-se dizer, pois, que o pensamento agostiniano foi a bússola, o farol, a direcionar o homem medievo, no que tange à relação entre a fé cristã e o estudo da natureza, no admitir a importância do conhecimento, mas entendendo que a em Cristo vem a restaurar a condição decaída da razão humana, numa importância superior ao conhecimento. Agostinho defendia que a interpretação da BÍBLIA deveria seguir os conhecimentos disponíveis, em cada época, sobre o mundo natural. Sua interpretação do GÊNESIS, viria a influenciar, sobremaneira, a Igreja medieval, dotando-a de uma visão mais interpretativa e menos literal dos textos bíblicos. (mais…)

AO PÉ DA LETRA (Quincas Vilaneto): a arte poética na escuta de si mesma – prefácio

Dinacy Mendonça Corrêa

download
13445240_1093286030714893_5074954693836457323_n
Ser poeta é ter sempre na alma a corrente ininterrupta de vida viva de uma tradição sempre a renovar-se, em seu fluxo contínuo, do passado para o futuro, a iluminar sucessivas gerações, a reproduzir subjetividades, a sublimar os nossos sentimentos mais vis… (T. S. Eliot)

O poeta em si é calvário e denúncia: ao revelar-se pela palavra […] ele testemunha as aspirações do homem no que ele tem de infenso às máscaras de todos os despotismos efêmeros. Melhor: de todas as escórias verbais, coirmãs dos desmazelos de um descompasso social. (Nauro Machado)

Para a nossa alegria e edificação compartilhada, eis mais uma lavra/seara poética deste nosso Campus, locus amoenus inspirador, tendo (ainda) a natureza como cenário e que se vem demonstrando fértil e promissor, no gerar, gestar e germinar da grande arte, a emanar dos nossos poetas magisters[1]! E quem nos surge e refulge, de novo, aqui e agora, “Ao pé da Letra”, em conectividade oral com a grande Musa, é o nosso já veterano na Arte, Quincas Vilaneto, “em palavras” – com a “voz coalhada de metáforas/ que gemem rodeadas/ pelos impulsos das vogais./ Sobre as quais,/ o poema se apoia/ para não submergir mudo/ patinando nas consoantes/ tatuadas na memória […].” – que inicia a sua mais recente, sublime empreitada lírica, confessando:

Não tenho outro ofício./ Se não existisse a palavra/ Eu nunca seria um artífice/ Nem mesmo um letrado./ Sem decorar uma linha/ Tenho estado ocupado/ A abrigar vestígios/ Dos sons repetidos/ A trançar outro desígnio./ Nada deixo sem palavra/ […]./ Movido pelo bulício da tarde/ As cigarras viram presas/ E as palavras ganham asas/ Para o desfrute da arte.

download (67) É isso aí: efetivada pela palavra – “a pele do pensamento vivo”, conforme já assinalado por Platão e Aristóteles[2] – aqui está a Poesia elevando, dignificando o que de mais nobre pode sistematizar a língua, mediar a linguagem (em suas configurações, moldando-se aos impulsos individuais), num processo de comunicação interativa, humanizadora do universo; a impulsionar a imaginação, regulada esta pela essencial coerência (análoga aos fatos), sem a qual não se pode consumar o aperfeiçoamento, a evolução. E tudo pela linguagem (escrita, leiturizada) que, em suas configurações, se vai moldando aos impulsos subjetivos: “um pouco mais, e se poderia chegar a pensar que somente ela nos faz amadurecer[3]”. E’ o nosso poeta, expressando-se em sua fecundidade de espírito, em sua profundidade meditativa, revelando-se, confirmando-se, pois, “a nobreza verdadeira da humanidade[4]”; o pensador que vê onde e o que os outros não veem; o profeta que anuncia, denuncia, prenuncia… Sentinela sempre a postos na torre de vigia. (mais…)

CONSIDERAÇÕES SOBRE O AUTO BARCA DO INFERNO

Dinacy Corrêa

AUTO DA BARCA DO INFERNO[1] – Autoria Gil Vicente: o “Plauto Português” (1465-1537)

download (65)

Auto de Moralidade composto per Gil Vicente por contemplação da sereníssima e muito católica rainha Lianor, nossa senhora, e representado per seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei dom Manuel, primeiro de Portugal deste nome (Gil Vicente)[2].

 Muito mais do que uma sátira da sociedade lisboeta em princípios do século XVI, mais do que uma farsa ou um auto de moralidade (embora também o seja), “Auto da barca do inferno” é um bem humorado arrazoado dos vícios que corroem o mundo e uma crítica – infelizmente ainda válida – à organização da sociedade humana (Jeane Tutikian)[3]

Encenada pela primeira vez aos reis portugueses: D. Manuel I e D. Maria de Castela. Produzida na transição da Idade Média para Renascimento (Idade Moderna), oscilando, pois, entre os valores morais das duas épocas[4]. O auto representa o julgamento das almas humanas na hora da morte.

Composta em heptassílabos (versos de sete sílabas), rimados e ritmados (numa conexão poesia e teatro), tom coloquial, eivado de ironia, trocadilhos, metáforas… as rimas, em geral, obedecendo ao esquema ABBAACCA…1017190-250x250

Olá, ó demo barqueiro! (A)

Sabeis vós no que me fundo (B)

Quero lá tornar ao mundo (B)images,images

E trarei o meu dinheiro (A)

Aqueloutro marinheiro (A)

Porque me vê vir sem nada (C)

Dá-me tanta borregada (C)

Como arrais lá do barreiro (A) – fala do onzeneiro

…perspectiva acentuadamente doutrinária, numa variação linguística (que intersecciona o português, o latim e o espanhol – em determinadas circunstâncias), as personagens denotando, através da fala, aspectos da sua condição social, trata-se de uma das mais famosas e representativas obras do teatro vicentino, em que o dramaturgo usa a questão religiosa como pretexto para a crítica de costumes. Complexa alegoria dramática, contendo um único ato, dividido em cenas (em construção simétrica – todas com a mesma estrutura). Auto de Moralidade – na expressão do próprio autor, ao apresentar esse seu “Auto”[5] –  esse tipo de exposição teatral, às vezes aproximando-se da Farsa, com personagens alegorizando ideias abstratas, entre o Bem e o Mal – continua a refletir/transmitir, através das gerações, uma visão da sociedade lisboeta das primeiras décadas do século XVI – panorama que, em alguns aspectos, ainda pode coincidir com os tempos atuais.

Na didascália inicial, são apresentadas todas as personagens que vão passar pelo cais – o fidalgo, o onzeneiro, o parvo, o frade, a alcoviteira, o judeu, o Corregedor e o Procurador e, por último, os quatro cavaleiros, e as que vão julgar: o Diabo (e o seu companheiro) e o Anjo.

A ação vai decorrendo com a chegada dessas personagens ao porto, direcionando-se às barcas – personagens que, pode-se dizer, muito bem confeccionadas e selecionados pelo autor, posto que fica evidente, na peça, tratarem-se de tipos representativos das várias classes sociais da época:

  • a nobreza – representada pelo fidalgo;
  • o clero – pelo frade;
  • os “trabalhadores livres” – pelo sapateiro;
  • o judiciário – pelo corregedor, pelo bacharel, e pelo procurador;
  • os agiotas e os ladrões – pelo onzeneiro e pelo enforcado.

Outras personagens interessantes e também representativas, daquela sociedade:

  • feiticeira e a cortesã – por Brísida Vaz e pela concubina do frade;
  • o judeu – personagem de passagem dúbia na peça.

Elementos alegóricos

  • cais – onde se encontram as barcas – passagem da vida terrena pra o além;
  • barcas – caminho que conduz à salvação ou à perdição;
  • diabo – o mal, condenação dos vícios;
  • anjo – o bem, a recompensa das virtudes;
  • auto da Barca do Inferno – o juízo final;
  • fidalgo – a nobreza (crítica àqueles que só pensam no seu status social).

(mais…)

LITERATURA BRASILEIRA: estilos de época (aos meus alunos, em geral)

download (56)

Dinacy Corrêa

Caros alunos(as) – “anjos da sala de aula”,

Sob o título Literatura brasileira: estilos de época – que concentra este nosso programa de introdução à Literatura Brasileira – vêm a lume esta Apostila – apontamentos que, além de um simples resumo, pode valer também como um roteiro informativo/formativo de estudos, dentro do tema aludido. Todo seu. Elaborado exclusivamente para você, porque você existe e é muito importante para nós, que integramos o Sistema de Educação Pública do nosso Estado, como membro do corpo docente do Magistério de Ensino Médio (SEDUC) e Superior (UEMA). Veja e leia, leia, LEIA… Estude, estude, ES-TU-DE! Enfatizamos esses dois verbos porque é muito importante Ler e Estudar. Todo o êxito num processo ensino-aprendizagem vem da leitura e do estudo – até mesmo para lembrar o inesquecível professor Arno Kreutz (UFMA-anos 80 do sec. XXp/p), que arriscava mais ainda dizendo: “O aluno que sabe ler e estudar nem precisa de professor para aprender… Por quê?! Ora, tudo o que o professor ensina na sala de aula está nos LIVROS!!” É isso aí. Verdade verdadeira, pois não? É SABER mesmo Ler e estudar (com responsabilidade, entrega, amor, de-di-ca-ção). Nosso abraço magisterial (Profa. DMCorrêa)

 INTRODUÇÃO: literatura e estilos de época

El mistério de la obra literária no será jamás por nadie enteramente esclarecido. (Azorín)

Estilo es todo lo que individualiza a um ente literário: a uma obobra, a uma época, uma literatura. (Dámaso Alonso)

Toda a arte tem por missão precípua interpretar e reinterpretar a realidade circunstancial – que lhe serve de suporte histórico e social – mediante a perspectiva pessoal do artista, sua visão de mundo, do homem, vicissitudes, anseios, angústias e experiências de vida.

Mas el arte?

–Es puro juego,

Que es igual a pura vida,

Que es igual a puro fuego

Veréis el áscua encendida

(Antônio Machado[1])

A literatura, a arte das artes, vem, por isso mesmo, constituindo-se, ao longo da existência milenar da humanidade, num veículo, através do qual, o sujeito/autor apreende, em seus momentos de inspiração (ou de transpiração como o diria Thomas Edson), seu universo-perspectivado e o reconceitua, transfigurando-o, simbolizando-o, num caleidoscópio inédito de palavras e idéias, que despertam a fantasia, o devaneio, a evasão, a poesia, o real, a crítica e a reflexão social.

Assim, mimetizando, o concreto, o apreensível, empiricamente falando, a literatura veicula, não raro, um modo que conjuga: de um lado, a crítica de costumes e a reflexão social; e de outro, uma tentativa de esclarecimento e, portanto, de conscientização, direcionada ao leitor, no que toca à temática-problemática ficcionada em uma determinada obra, a partir das formulações e princípios defendidos por seu criador. E muito mais há para dizer sobre essa “arte das artes”, a “arte da palavra”. (mais…)

FÁBULAS: uma tradição sempre renovada

Dinacy Corrêa

 9722611429

As fábulas fazem parte do nosso imaginário, e cada época, cada geração, já foi influenciada por essas historinhas – para os mais jovens, encantadas; para os adultos, mais significantes.. Talvez porque elas permitam o eterno confronto entre as pretensões, as ilusões e as vaidades humanas. Ou mesmo como preferem os humanistas, pelo fato de representarem uma forma resistente e fecunda da tradição legada pela antiguidade greco-latina. De fato o poeta- fabulista Jean de La Fontaine (1621-1965) é lido há mais de 300 anos e, muitos anos antes, o grego Esopo e o romano Fedro já tinham deixado suas marcas, alimentando nossa imaginação. (In: Fábulas de La Fontaine; Trad. de Ferreira Gullar. 5a. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2002 – aba esquerda da obra)

 Era uma vez… a lebre e a tartaruga. Aquela, sempre caçoando da lerdeza desta. Já deveras cansada de ser alvo de gozações, a tartaruga lança um desafio à lebre: “Topa uma corrida?” “Claro que sim, sua lerda”, responde a lebre, muito segura de si, convicta de que ganharia fácil, o certame. Sem perder tempo, começa a tartaruga a caminhar, com seus lentos (porém firmes) passinhos, sendo imediatamente ultrapassada pela lebre – que, despreocupada, na certeza de que a vitória já era sua, resolve tirar um cochilo. E entrega-se aos braços de Morfeu. Ao acordar, não vê a tartaruga e põe-se a correr, desesperada. Já na reta final, vê a sua adversária, toda sorridente, cruzando a linha de chegada. Moral da história: “devagar se vai ao longe!!”

Atentemos para a estrutura dessa fábula e percebamos: trata-se de uma narrativa curta, protagonizada por animais (personagens da história) – que, por incrível que pareça, adquirem características de seres humanos, agindo como se fossem pessoas (algumas fábulas chegam a apresentar diálogos; os animais falando como gente).

Vale ressaltar que toda fábula é composta de elementos fundamentais: a narrativa e a moralidade. Vale dizer que a fabula encerra com um fundo moral, justo para nos advertir e ensinar sobre a importância de valorizarmos, cultivarmos as virtudes: BONDADE, AMOR, COMPAIXÃO, LEALDADE, JUSTIÇA, HONESTIDADE, COMPREENSÃO, SIMPATIA/EMPATIA para com o outro, etc.

Gênero narrativo (originário do conto popular), que trabalha, em geral, as características relacionadas ao comportamento humano (inveja preguiça, a competição… entre outros) – assim levando-nos (no seu desfecho surpreendente) a refletir sobre tais atitudes – fábulas (do Latim fabula: história, jogo ou narrativa), são pequenas composições literárias (em prosa ou verso), próximas do mito e da poesia. Narrativas alegóricas, protagonizadas por animais que apresentam características antropomórficas. Gênero literário muito presente na Literatura Infantil.

Caráter educativo, as fábulas estabelecem uma analogia entre o cotidiano da vida humano e as histórias vivenciadas pelas personagens, encerrando um fundo moral, no desfecho da narrativa. A principal diferença entre o conto e a fábula é que esta transmite uma lição de moral – sua verdadeira função, ao longo da tradição esópica.

Ainda que desenvolvidas por Esopo, a origem das fábulas antecede os gregos, tendo como precursores os provérbios sumérios – que já incluíam, em suas narrativas curtas e diretas, animais antropomórficos e uma lição moral no fecho da história.

 Escritos há cerca de mil e quinhentos anos antes de Cristo, tais provérbios já denotavam semelhanças com as fábulas gregas. Só muito, muito mais tarde, costumou-se a separar a moral no inicio ou no fim da fábula (visando a deixar claro, para o leitor, a mensagem objetivada pela história). (mais…)

EXPRESSÃO FEMININA NA POESIA MARANHENSE CONTEMPORÂNEA

Dinacy Corrêa[1]

Um olhar sobre a poesia maranhense contemporânea, de autoria feminina (especificamente a safra poética das últimas décadas do século 20 próximo passado, a partir dos anos 80, no trânsito para o século XXI), na representação das poetisas aqui circunstancial e oportunamente elencadas: Arlete Nogueira da Cruz, Laura Amélia Damous, Dilercy Adler, Rita de Cássia Oliveira, Lenita Estrela de Sá, Lúcia Santos, Maria Martha, Wanda Cristina Cunha, Rosemary Rego, Geanne Fiddan, Goreth Pereira, Andréa Leite Costa e Henriqueta Evangeline.

Palavras-chave: lirismo; metalinguagem; intertextualidade.

Un regard sur la poésie contemporaine du Maranhão, produite par des femmes (spécifiquement la récolte poétique des dernières décenies du XXème siécle, dans la transition pour le siècle XXI), representée, au moment, par des poeteses choisies, dans cette oportunité – soit, les tmêmes dejà cités ci-dessus.

Mots-clef:: lyrisme; métalangage; intertextualité.

De geração em geração, de Gonçalves Dias a Sousândrade (1832/1902 – autor, dentre outros títulos de O GUESA ERRANTE, escrito entre 1858-1888), passando por Maria Firmina dos Reis, em seus CANTOS À BEIRA-MAR (1871), remontando ao Grupo Maranhense (1832/64), passando pela Oficina dos Novos (1900), por Corrêa de Araújo (que, transitando do parnasiano ao pré-moderno, antecipa a geração de 30/40)… lembrando Bandeira Tribuzzi (que, com ALGUMA EXISTÊNCIA, descortina novos horizontes estéticos), chegando a Ferreira Gullar (que com o seu Poema Sujo-1976, estruturalmente complexo, num misto de lirismo e memória narrativa, vem a ser classificado como um dos melhores poetas brasileiros do século XX),  a Luís Augusto Cassas, no transe do século XX/XXI, a poesia maranhense vai construindo/percorrendo seu itinerário histórico-literário.

Os anos 70/80, aqui no Maranhão, convencionados “Geração Luís Augusto Cassas”, abrem-se com o poeta Jorge Nascimento (1931), continuando com Arlete Nogueira (1936), Eloy Coelho Neto (1924), Cunha Santos Filho (1952), João Alexandre Júnior (1948), Chagas Val (1943), Francisco Tribuzzi (1953), Alex Brasil (1954), Adailton Medeiros (1938)… Este último tendo participação confirmada na “Vanguarda Práxis”, no eixo Rio/São Paulo, sob a liderança de Mário Chamie.

Os poetas supra referidos todos estrearam com livro, na década de 70, época em que desponta, em São Luís, o Movimento Antroponautico (1969/1972) integrado por autores que, mesmo sem terem feito lançamento, comparecem na antologia do citado movimento: Luís Augusto Cassas (1953), Chagas Val (1948), Valdelino Cécio (1952), Raimundo Fontenele (1948), Viriato Gaspar (1952). A referida antologia continuaria, em 1975, com Hora de Guarnicê – poesia nova do Maranhão, reunindo os poetas da coletânea anterior, acrescida de nomes novos, como João Alexandre Júnior e Rossini Corrêa – que se revela, com obra de sua lavra, na década de 80.

Despontando com REPÚBLICA DOS BECOS (1981), Luís Augusto Cassas alcança uma repercussão nacional, colocando nessa dimensão os poetas seus contemporâneos, dentre os quais se destacam: Roberto Kenard e Laura Amélia Damous.

Os mais novos, na trajetória evolutiva da Poesia Maranhense, transitam entre “…um neo-romantismo de feição já crítica, ora integrando a sua linguagem a um corpus poético já decididamente moderno” (Brasil, 1994, p. 11). São eles: Alex Brasil (1954), Ivan Sarney (1946), Luís Moraes (1948), César William (1967), Morano Portela (1956), Bernardo Filho (1959), Luís Inácio Araújo (1968).

Por outro lado, vale lembrar, no transcurso da nossa história, a mulher – educadora e corredentora da humanidade, elemento-chave, num processo de construção do homem e do mundo – em suas atividades, incluindo a literatura, veio sendo relegada a um segundo plano. Nossa cultura, tradicionalmente androcêntrica, não via com bons olhos a liberdade de expressão feminina, cujas representantes vieram a se introduzir na literatura oficial muito tardiamente (a partir do século XVII) e ainda com algumas restrições. Felizmente, tal cenário se foi modificando e hoje ela (a mulher) vêm assumindo, com dignidade e brilhantismo, o seu meritório lugar na sociedade.

Aqui no Maranhão, no pioneirismo de Maria Firmina dos Reis (sec. XIX-1825, produzindo o seu primeiro e único romance-ÚRSULA em 1859), não se fez diferente. E é de se constatar que a nossa literatura, em sua magnitude, se tem revelado, em nível local e nacional, por vezes, até mesmo universal, sendo-lhe inconteste a presença feminina e na excelência de uma dicção diferenciada. Não obstante… a cortina de silêncio, ainda a envolver esse potencial significativo das nossas Letras, numa invisibilidade que furta, às nossas literatas, o devido e merecido (re)conhecimento e a consequente popularidade, mesmo na terra natal.

No século XX, por exemplo, podemos observar um aflorar constante e considerável de mulheres escritoras, aqui em nosso Estado. Nomes como: Lucy Teixeira, Conceição Aboud, Dagmar Desterro, Arlete Nogueira, Virgìnia Rayol, Roselane Murad Col Debelle, Aurora da Graça, Vanda Cristina Cunha, Laura Amélia Damous, Lenita Estrela de Sá, Maria Marta, Rita de Cássia Oliveira, Lúcia Santos, Dilercy Aragão Adler, Sônia Almeida, Rosemary Rego, Geane Lima Fiddan, Silvana Meneses, Sandra Regina Alves Santos, Joelma Corrêa, Márcia Gardênia Serra Mota, Jorgeane Braga, Judith Coelho, Rosemary Rego, Raimunda Santos, Goreth Pereira, Henriqueta Evangeline… entre tantos outros, foram surgindo e integrando a nossa antologia poética, compondo o acervo da nossa produção literária, numa variedade de estilos e talentos individuais.

O que se segue, ainda que não venha a se constituir num trabalho denso e extenso, revestido de análises profundas, propõe-se, através das autoras oportunamente aqui elencadas, a uma mostra do nosso aqui/agora poético, à guisa de conhecimento e difusão desse importante seguimento da nossa cultura e arte literária, ainda deveras proscrito da nossa realidade (e/ou mesmo relegado ao esquecimento).

Às poetisas maranhenses, pois… e direcionando, mais extensa e intensamente, o olhar a  ARLETE NOGUEIRA, que abre, com a sua monumental Litania da Velha (de grande repercussão no cenário literário nacional), esta galeria de poetisas maranhenses contemporâneas.

arleteARLETE NOGUEIRA DA CRUZ MACHADO – (Cantanhede-Ma.-1936). Esposa do poeta Nauro Machado, mãe do cineasta Frederico Machado. Licenciada (UFMA) e Mestre (PUC-RJ) em Filosofia. Poetisa, ensaísta e romancista, é autora de: A Parede (1966) e Compasso Binário (1970) – romances; Cartas da Paixão (1969) – ensaio filosófico; Canção das horas úmidas (1975) e Litania da Velha (1995) – poesia; Trabalho Manual (1998) – prosa reunida; Contos Inocentes (2000) – infantil; Nomes e Nuvens (2003) e Sol e Sal (2006) memória literária maranhense; O rio (2006) – espécie de fábula poética.

Como se nos foi dado observar acima, na geração Luís Augusto Cassas – a mais nova representação da poesia contemporânea do Maranhão, adepta das tendências modernistas – situa-se Arlete Nogueira, cujos quarenta anos de labor artístico/literário comemorou-se em 2002, num “momento especial da literatura maranhense” (Carneiro Filho, 2002, p. 2). E a escritora prossegue, já perfazendo mais de meio século, em sua aventura com a palavra.

Com o seu poema narrativo Litania da Velha, timbrado em signos neodecadentistas, a maranhense impõe-se como uma das mais (senão a mais) altissonantes vozes da lírica maranhense considerada pós-moderna, na expressividade de uma poesia que, na sua peculiar empatia, consegue rastrear e captar as pulsações da São Luís colonial, resgatando-lhe e traduzindo os ecos de um cotidiano retumbante nas suas marcas de tempo.

Percorrer, pois, essa litania é perfazer um périplo poético pelo centro da cidade, em sua transcendência espaciotemporal, ouvindo-lhe, nas entrelinhas de ruas e ladeiras, a “cantaria” do abandono. Projetando na voz que a protagoniza: as aspirações, a dor, a história de um povo, no anonimato do seu devir coletivo, Arlete Nogueira personifica a cidade em ruínas, apontando para a indiferença com que é tratada por seus habitantes. Litania da Velha é, pois, mensagem edificante, a merecer destaque no meio acadêmico e sociocultural, à medida que, vibrando, ecoando nas consciências o dever de reconstrução do caos urbano, decorrente do descaso e da inexorabilidade do tempo, faz despertar para a valorização e revitalização de um patrimônio histórico que testemunha o passado no presente, perpetuando a memória histórica e cultural da nossa cidade.

Composto em 1995, em pleno ocaso do século XX, no trânsito para o século XXI, o poema, como já o sugere o próprio nome, condensa, em sua paisagem lírica, marcos característicos de um contexto finissecular/finimilenar: perda de referenciais, quebra de paradigmas, dúvidas, ruína, decadência de valores… Enfim, todas as incertezas e indefinições humanas que evocam o decadentismo dos Oitocentos. Tendo, já, transitado da linguagem verbal para a linguagem cinematográfica, num cruzamento de signos (ressalte-se que o roteiro cinematográfico é um texto híbrido, surgido, a propósito, no final do século XIX, no apogeu da estética decadentista), Litania da Velha vem se tornando um hipo/hipertexto que, ancorado no código literário, vai passando por um processo de miscigenação e metamorfose, numa intersemiose de códigos, remetendo a uma nova compreensão e ressignificação artístico-metatextual – o que vem enriquecer, mais ainda, a produção original, abrindo caminho para novas investigações linguísticas e literárias. (mais…)

REMEMORÊMO-LO que faleceu recente/repentinamente, e sozinho, no trânsito da noite (28/02-para o dia 29/02/2016-próximo passado), deixando eternas saudades…

RAIMUNDO NONATO BUCAR

 Dinacy Corrêa1

 Filho adotivo, diante do presépio ao qual se dedica, há tantos anos, na São João, ele pede ao Deus-Menino que abençoe o Mundo com o Amor de muitas mães Veras…

Despercebido, tantas vezes esquecido… No silêncio do anonimato, ele é presença humana, marcante e atuante. Sério, responsável, confiável. De uma eficiência sem precedentes, de uma competência que o estabelece como pessoa necessária, indispensável, no contexto em que está integrado. “Ninguém é insubstituível”, diz o ditado. No entanto, já é difícil, quase impossível, imaginar a Paróquia, a Comunidade, a Igreja de São João (Rua da Paz – Centro) sem Nonato. Ali ele faz acontecer

12601267

De uma polivalência que transita dos serviços gerais (passando pela limpeza, pela secretaria, contabilidade, administração e até mesmo pela vigilância noturna da Casa) à assessoria nos ofícios religiosos, ele é, a bem dizer, o faztudo da Igreja. Nas missas diárias (com exceção, ultimamente, das dos fins de semana), é ele quem prepara o altar, ajusta o som, faz a leitura introdutória das intenções, as da liturgia da palavra (na falta do ministério de leitura); assume os cantos, ensaiando-os (se for ocaso) a priori, com acomunidade (na falta do ministério de música); faz a coleta do Ofertório… Problema no sistema de som? Ele resolve. Nas instalações elétricas? É com ele. Pintura? Ele pinta, ou providencia o pintor. E assim, sucessivamente, sem contar o serviço social que presta a tantos desassistidos (mendigos e velhinhas), que vivem à sombra da Igreja. Sem esquecer, ainda, o pendor para as artes plásticas, que o habilita à confecção anual do Presépio Natalino – responsabilidade que tomou para si, desde o início dos anos 80, na falta irreversível do saudoso Aécio Rego. Presépio que, diga-se de passagem, mereceria um capítulo à parte, na história desse gênero de arte sacra, tão cultivado aqui em São Luís, nas igrejas, no tempo do Natal – seja pela sua tradicionalidade; seja, mais ainda, pelo caráter de arte engagée,  assumido, no que se pode considerar o seu período áureo. Falamos dos meados dos anos 70 –  quando, então, por iniciativa do Grupo de Jovens da Paróquia, com o apoio e a orientação do impagável Pe. Marcos Passerini e sob toque mágico do artista Aécio Rego, ali na São João armava-se o presépio temático ( mensagem, sempre em sintonia com a realidade social do momento). Flagremos, a propósito, alguns desses instantâneos memorialísticos, à guisa de ilustração… (mais…)

JOSÉ VERÍSSIMO (1857-1916): centenário de partida (“desta para melhor”) de um dos nossos pioneiros na crítica e historiografia literária nacional

Dinacy Corrêa

historia-da-literatura-brasileira-jose-verissimo-7737-MLB5271060060_102013-O

download (54)download (55)

Confesso haver hesitado na exposição da marcha da nossa literatura, se pelos gêneros literários, poesia épica, lírica ou dramática, história, romance, eloquência e que tais, consagrados pela retórica e pelo uso, ou se apenas cronologicamente, conforme a sequência natural dos fatos literários. Ative-me afinal a este último alvitre menos por julgá-lo em absoluto o melhor que por se me antolhar o mais consentâneo com a evolução de uma literatura, como a nossa, em que os fatos literários, mormente no período de sua formação, não são tais e tantos que lhes permitam a exposição e estudo conforme determinadas categorias. Nesse período e ainda no seguinte, aqueles diferentes gêneros não apresentam bastante matéria à história, sem perigo desta derramar-se ociosamente. Ao contrário, expor esses fatos na ordem e segundo as circunstâncias em que eles se passam, as condições que os determinam e condicionam e as feições características que afetam, parece fará mais inteligível a nossa evolução literária com a vantagem de guardar maior respeito ao princípio da última unidade da literatura. Nesta, como na arte e na ciência, é conspícua a função do fator individual. Um escritor não pode ser bem entendido na sua obra e ação senão visto em conjunto, e não repartido conforme os gêneros diversos em que provou o engenho. (José Veríssimo[1])

 José Veríssimo Dias de Matos (Óbidos-PA-08.04.1857/Rio de Janeiro-RJ-02.02.1916) – jornalista, professor, educador, crítico literário. Filho de José Veríssimo de Matos e Ana Flora Dias de Matos. Estudos básicos em Manaus-AM e Belém-PA. Em 1869, Rio de Janeiro – ali ingressando na Escola Central (hoje Escola Politécnica), interrompendo os estudos por questões de saúde. Em 1876, retorna ao estado natal, entregando-se ao magistério e ao jornalismo: a princípio, colaborando no Liberal do Pará; posteriormente, como fundador e dirigente da Revista Amazônica (1883-84) e do Colégio Americano.

Em 1880, parte num tour pela Europa. E’ quando, em Lisboa, num Congresso Literário Internacional, defende com brilhantismo os escritores brasileiros (então censurados, injuriados por aqueles que insistiam ver o livro brasileiro sempre na retaguarda da literatura local).

Em 1889, Europa novamente: X Congresso de Antropologia e Arqueologia Pré-Histórica em Paris – ocasião em que discorre sobre tradição e cultura marajoara, no contexto da antiga história da Civilização Amazônica, culminando com ensaios sociológicos importantes, tais quais Cenas da vida amazônica (1886) e A Amazônia (1892).

De volta ao Pará, é nomeado diretor da Instrução Pública (1880-91). Em 1891, transfere-se de novo para o Rio de Janeiro, onde retorna ao magistério como professor da Escola Normal (atual Instituto da Educação) e do Ginásio Nacional (atual Colégio Pedro II), dos quais vem a ser também diretor. Quando ainda no Pará, interrompera os estudos ensaísticos no campo da Sociologia e da História, dedicando-se à crítica e à historiografia literária – ramo a que se dedicará, mais intensamente, no Rio de Janeiro. (mais…)

Página 1 de 1312345...10...Última »