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ACADÊMICOS DO ME ENGANA QUE EU GOSTO: Reflexões de Vinícius Bogéa

 

Além de alegria e exultação, o carnaval pode ser a oportunidade ideal para expressar inconformismo, soltar a plenos pulmões todo o descontentamento com os mais diversos problemas escancarados pelo País afora, quiçá, ao redor do mundo.

Pode ser nos blocos, em uma módica fantasia ou na suntuosa Marquês de Sapucaí, como algumas escolas, historicamente, já se manifestaram, e de viva memória está a Paraíso do Tuiuti. Agremiação modesta, desconhecida, até então, que “homenageou” o presidente Michel Temer na avenida e o elegeu como o grande vilão da pátria, retratado naquele imponente vampiro nebuloso.

O desfile merecia disputar o Oscar na categoria de melhor roteiro original, pela ousadia em estampar para todo o mundo as mazelas de um Brasil deteriorado pelas forças lôbregas da política nefasta.

Mas, no fim das contas, a Paraíso de Tuiuti não levaria o prêmio principal. As falhas no roteiro logo seriam detectadas. Uma lacuna de treze anos fora esquecida pelos roteiristas, os mesmos que apontaram o dedo, vejam só, para o vampiro, e renegaram os sanguessugas do maior caso de corrupção da história mundial, ignoraram o Mensalão, fizeram vista grossa para a lama derramada sobre o Planalto ao longo da década passada. Imaginem a cena: rios de dinheiro jorrando pelas janelas da Petrobras, com estrelas reluzindo ao alto. Um espetáculo, de fato, seria, mas os olhos seletivos não permitiram enxergar a evidente realidade dos fatos. A intenção era uma só: “Lacrar”. E conseguiram. O alvo foi atingido, mas só a ala acometida pela cegueira ideológica vibrou.

Falou-se em combater a “opressão” na passarela.

Curioso lembrar o desfile do ano passado, quando esta mesma escola operou de forma negligente e causou um grande acidente, com uma vítima fatal, inclusive. Mas foi absolvida por esta sociedade tão “vil” e “opressora”, que renegou até mesmo uma opressão criminal. Foi premiada e livre do rebaixamento. Nota 10 em hipocrisia.

Outro tema abordado pela escola foi direcionado à reforma trabalhista e a “exploração” dos trabalhadores. Mas, em terra de muro baixo, a pedra bate a e volta. Em 2017, a agremiação empregou apenas três trabalhadores pela CLT (Consolidação das Leis de Trabalho), mesmo tendo utilizado um arsenal de pessoas para confeccionar fantasias, carros alegóricos e demais tarefas do desfile. Que beleza! Que maravilha! Mais uma nota 10, desta vez, na categoria embuste.

A Paraíso de Tuiuti tinha tudo para realizar um desfile histórico, mas sua passagem na avenida foi uma farsa. Programada para desfilar exclusivamente a uma única ala, a da militância, deixou cair a máscara da seletividade, igual a muitas que nota-se diariamente, principalmente nas redes sociais.

Sim, foi um desfile emocionante, mas, quando a emoção é seletiva, o regozijo não dura nem até a quarta-feira de cinzas, porque a realidade é tão apavorante quanto o vampiro de Michel Temer retratado na avenida. Só não vê quem não quer.

A propósito, o carnaval chegou ao fim, mas o Lava-Pratos já tem uma escola agendada para se apresentar no desfile das campeãs da hipocrisia; a Acadêmicos do me engana que eu gosto.

(Por Vinícius Bogéa)

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